Demência em idosos: sinais, tipos, diagnóstico e como cuidar

Filha ao lado da mãe idosa em casa, com luz natural Foto: Pexels

A demência em idosos não é parte natural do envelhecimento.

Esse é o nome que a medicina dá à perda progressiva da memória e de outras funções do cérebro a ponto de atrapalhar a vida do dia a dia.

Essa condição tem causa, diagnóstico e tratamento.

O que é demência?

Demência é a perda das funções do cérebro que a pessoa já tinha, a ponto de comprometer a vida independente.

Não é uma doença única, e sim um conjunto de sintomas que várias doenças diferentes podem provocar.

“Demência, em medicina, não tem nada a ver com o conceito popular. Conceito popular, demência, loucura. É assim que as pessoas entendem a demência. Na verdade, em medicina, se refere a alterações da cognição”, explica o médico Drauzio Varella.

Cognição é tudo aquilo com que a pessoa entende o mundo à volta dela, como memória, linguagem, atenção, raciocínio e a orientação no espaço.

Nas demências, esses processos vão se desorganizando e a leitura da realidade fica prejudicada.

Como resume Drauzio, “as demências são a perda da capacidade cognitiva”.

Por isso a demência em idosos surge primeiro nas pequenas tarefas que exigem memória e julgamento, e só depois no restante da vida.

Quais são os sinais de demência no idoso?

O sinal mais conhecido é o esquecimento, mas ele vem acompanhado de outras mudanças.

O que diferencia a demência do esquecimento comum da idade é o impacto na rotina: esquecer onde deixou a chave é uma coisa, esquecer para que serve a chave é outra.

Os sinais de alerta costumam surgir juntos, aos poucos:

  • Memória recente falha primeiro. A pessoa esquece o que acabou de acontecer, mas lembra bem da juventude. Drauzio descreve o padrão: “repete cinco, dez vezes a mesma pergunta. Quem tá perto fica irritado, ‘mas você acabou de perguntar’. Ela acabou de perguntar, só que ela perdeu a capacidade de reter a informação.”
  • A linguagem some. Faltam palavras simples, e a conversa perde o fio.
  • A orientação se perde. O idoso se confunde no caminho que fez a vida inteira, ou troca o dia pela noite.
  • O julgamento falha. Contas deixam de ser pagas, o dinheiro se atrapalha, decisões simples ficam difíceis.
  • O humor e o comportamento mudam. Surgem desconfiança, apatia, irritação ou desinteresse pelo que a pessoa gostava.

Leia mais: Quais são os sintomas iniciais de Alzheimer?

Quais são os tipos de demência?

A demência tem mais de uma forma.

De acordo com Drauzio Varella, tudo depende da doença que está por trás e da região do cérebro atingida.

Os tipos mais comuns são:

  • Doença de Alzheimer. É a causa mais frequente, responsável pela maior parte dos casos. Nela se acumula no cérebro uma proteína, a beta-amiloide, que prejudica o funcionamento dos neurônios.
  • Demência vascular. Vem de problemas na circulação do cérebro, como um ou vários derrames (AVC), que vão destruindo áreas responsáveis pela cognição.
  • Demência com corpos de Lewy. Mistura perda de memória com alucinações visuais e sintomas parecidos com os do Parkinson, como rigidez e tremor.
  • Demência frontotemporal. Atinge mais cedo as áreas ligadas ao comportamento e à linguagem, e costuma começar por mudanças de personalidade antes da memória.

A doença de Alzheimer é a mais lembrada, mas é um tipo dentro de um grupo maior. Nas palavras de Drauzio, “a doença de Alzheimer é um dos tipos de demência, de quadro demencial”.

Leia mais: Demência e Alzheimer são a mesma coisa?

Como é feito o diagnóstico de demência?

O diagnóstico de demência é clínico e começa numa consulta, com o geriatra ou o neurologista.

Não existe um exame específico que diga “sim” ou “não”. O médico junta a história do paciente, o relato de quem convive com ele e uma série de avaliações.

A consulta costuma reunir três aspectos principais:

  1. Conversa e testes cognitivos medem memória, atenção e raciocínio com perguntas e tarefas simples.
  2. Exames de sangue procuram causas que imitam a demência, como falta de vitamina B12 e problema de tireoide.
  3. Exames de imagem do cérebro, como a tomografia ou a ressonância, mostram sinais de derrame, atrofia ou outras lesões.

O relato da família também conta muito, porque o próprio idoso nem sempre percebe o que mudou.

Anote antes da consulta o que você notou, quando começou e com que frequência acontece. Esse histórico ajuda o médico a separar o envelhecimento normal de uma doença que precisa de tratamento.

Esquecimento normal ou sinal de alerta de demência
Imagem: Arquivo Idoso Saudável

A demência tem cura?

A maioria das demências não tem cura, mas tem tratamento.

“Elas não têm cura e teoricamente devem piorar à medida que o tempo passa. Algumas vão piorar mais devagar, outras mais depressa”, afirma Drauzio.

Não ter cura não quer dizer não haver o que fazer.

Existem remédios que ajudam a controlar sintomas e a preservar a autonomia por mais tempo.

Além disso, o cuidado bem organizado melhora muito a qualidade de vida do idoso e de quem cuida dele.

Há ainda um grupo importante de casos em que a confusão mental não é uma demência definitiva e melhora quando a causa é tratada.

Falta de vitamina B12, problema de tireoide, depressão, efeito de remédios e desidratação podem provocar um quadro parecido.

Drauzio cita esses exemplos: idosos “que na verdade têm falta de vitamina B12” ou alterações da tireoide “começam a ficar confusos, atrapalhados”.

É justamente para não perder esses casos tratáveis que o diagnóstico correto importa tanto.

Dá para prevenir ou reduzir o risco de demência?

Não há como garantir que a demência não vai surgir, mas dá para reduzir o risco.

Drauzio explica que “alguns fatores que levam à demência são hereditários. Você nasce com determinados genes; não quer dizer que você vai ter demência, mas você vai correr um risco mais alto”.

A outra parte está no que a pessoa faz ao longo da vida, ou seja, algo que é possível mudar.

“Para reduzir o risco, você vai ter que ativar o cérebro permanentemente. Ler, fazer conta, aprender uma língua nova, tentar conversar com os amigos, manter laços sociais, porque as causas muitas vezes são agravadas pelo isolamento, perda de audição, perda de visão”, ensina Drauzio.

Em resumo, os principais cuidados estão ao alcance de quase todo mundo:

  • Manter a cabeça ativa, com leitura, jogos, contas e assuntos novos para aprender.
  • Preservar os laços sociais, porque o isolamento aumenta o risco.
  • Tratar a audição e a visão, com aparelho auditivo e cirurgia de catarata quando indicados.
  • Cuidar do corpo, controlando pressão, diabetes e colesterol, e mantendo o corpo em movimento.

Leia mais: Como a solidão na terceira idade afeta a saúde

Como a demência evolui ao longo do tempo?

O tempo de cada fase varia muito.

Na fase inicial, os esquecimentos e as trocas de palavra já incomodam, mas o idoso ainda cuida da maior parte da própria vida, com alguma supervisão.

Na fase intermediária, a dependência cresce. A pessoa precisa de ajuda para se vestir, tomar banho e lembrar da medicação, e a segurança da casa passa a exigir atenção constante. Podem surgir agitação, desconfiança e a troca do dia pela noite.

Na fase avançada, o idoso depende de outra pessoa para quase tudo, deixa de reconhecer familiares e perde a fala e a mobilidade. O cuidado, aqui, se volta ao conforto e à dignidade no dia a dia.

Antecipar essas fases permite adaptar a casa, ajustar o cuidado e organizar documentos e finanças antes que a doença avance.

Em alguns casos, quando o idoso já não consegue responder por si, a família precisa recorrer à Justiça para administrar a vida dele.

Como cuidar de um idoso com demência?

Cuidar de um idoso com demência é uma rotina de longo prazo, que se organiza em torno de três cuidados básicos: rotina estável, casa segura e comunicação calma.

  • Rotina estável. Horários fixos para comer, dormir e tomar remédio reduzem a confusão e a agitação de quem já não se orienta bem.
  • Casa segura. Atenção às quedas do idoso, ao fogão, às portas e aos remédios fora do alcance previne acidentes.
  • Comunicação calma. Frases curtas, sem discutir a memória falha, evitam o conflito que só piora a agitação.

Fontes

Fábio Guedes

Fábio Guedes é jornalista (MTb 77804) com mais de 15 anos de experiência em coberturas de temas relacionados às áreas da saúde, negócios e finanças.

Criou o Idoso Saudável, por acreditar que o brasileiro deve poder decidir como quer viver a própria velhice, com informação confiável ao alcance dele e de quem cuida dele.

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