A insônia no idoso tem hora marcada para incomodar: o corpo deita cansado e o sono não chega ou se rompe no meio da madrugada.
E junto vem o silêncio ensurdecedor da casa, o relógio que anda devagar e aquela conta angustiante de quantas horas ainda faltam para amanhecer.
No dia seguinte, a consequência que todos que sofrem de insônia conhecem muito bem: cansaço que não passa, pavio curto, cabeça lenta e uma forte sonolência que ataca à tarde.
Parte dessa mudança acompanha a idade e não é doença. Outra parte é insônia, e as duas pedem respostas diferentes.
Dormir mal por muito tempo cobra seu preço, do humor à memória, e aumenta o risco de uma queda na ida ao banheiro no escuro.
Boa parte das causas tem explicação e tratamento, e nem sempre a resposta está dentro de uma caixa de remédio.
Por que o sono muda com a idade?
O sono se transforma com os anos e parte dessa mudança é esperada. O relógio interno do corpo, chamado ritmo circadiano, organiza as horas de dormir e de acordar. Com a idade, esse relógio se adianta.
Muitos idosos passam a sentir sono mais cedo à noite e a despertar antes do amanhecer.
O sono também fica mais leve e se rompe mais vezes na madrugada, com despertares curtos que antes não existiam. Isso, por si só, não é insônia.
O médico Hiroki Shinkai, especialista em saúde do idoso, descreve esse ajuste natural do relógio interno: “O relógio biológico tende a se adiantar com a idade, e nós chamamos isso de avanço de fase.”
Quando o sono ruim se torna insônia?

Nem toda noite ruim é insônia. A diferença está no que sobra no dia seguinte.
Insônia é a dificuldade de iniciar ou de manter o sono, com prejuízo no dia que vem depois, como cansaço, irritação e falta de atenção.
O que define o problema é esse efeito sobre o dia. O horário em que o sono chega ou se rompe importa menos.
Um sinal importante é a frequência. Quando a dificuldade se repete várias noites por semana e se estende por meses, deixa de ser um episódio isolado.
O geriatra Flavio Jambo alerta contra a ideia de que dormir mal seria parte inevitável de envelhecer: “Muitas pessoas acreditam que é normal o idoso ter um sono de qualidade ruim, o que não é verdade.”
Ele delimita o que caracteriza o quadro: “Insônia é uma dificuldade para iniciar o sono ou se manter no sono, que deve ocorrer pelo menos umas três vezes na semana nos últimos três meses.”
O que mais causa insônia no idoso?
A insônia raramente surge sozinha. Na maioria das vezes, ela é o efeito de algo que atrapalha o sono por trás.
“A insônia muitas vezes é um sintoma, não um diagnóstico isolado”, resume o médico Hiroki Shinkai. “A dificuldade para dormir é uma consequência. Você tem que identificar a causa para não ficar tratando consequência.”
Por isso, vale olhar essa lista com atenção:
- Dor crônica, como a das articulações, que desperta no meio da noite.
- Vontade de urinar à noite, chamada de noctúria, que interrompe o sono várias vezes.
- Remédios de uso contínuo, alguns com efeito estimulante ou diurético.
- Ansiedade e depressão, que roubam o sono e pioram com ele.
- Apneia do sono, pausas na respiração durante o sono que fragmentam a noite.
- Síndrome das pernas inquietas, aquele desconforto nas pernas que obriga a mexer para aliviar.
- Cafeína à tarde ou à noite, no café, no chá preto e no refrigerante.
- Cochilos longos durante o dia, que tiram o sono da noite.
- Pouca luz natural e pouca atividade ao longo do dia.
- Um quarto desconfortável, quente, claro ou barulhento.
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Que riscos a insônia traz para o idoso?
As noites maldormidas, quando se acumulam, deixam marcas que vão além do cansaço.
O risco mais concreto surge à noite, na ida ao banheiro no escuro. O idoso levanta sonolento, o equilíbrio falha e é nesse trajeto que acontecem muitas quedas.
Durante o dia, a memória fica mais falha, a atenção escapa e o humor azeda com facilidade. A sonolência da tarde aumenta o risco de acidentes em tarefas simples, como cozinhar ou atravessar a rua.
Nenhum desses efeitos é uma sentença. Ao tratar a insônia e a causa dela, esses riscos diminuem junto.
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O que ajuda o idoso a dormir melhor no dia a dia?
Boa parte do que melhora o sono está em hábitos do dia, um conjunto que os médicos chamam de higiene do sono.
São ajustes simples na rotina e no ambiente que preparam o corpo para descansar:
- Manter horário regular para deitar e levantar, inclusive no fim de semana.
- Tomar luz natural de manhã e ao longo do dia, o que acerta o relógio interno.
- Encurtar o cochilo e fazê-lo no começo da tarde.
- Cortar café e álcool à noite, que atrapalham o sono profundo.
- Reduzir as telas na cama, celular e televisão perto da hora de dormir.
- Praticar atividade física durante o dia, longe do horário de deitar.
- Deixar o quarto escuro, silencioso e fresco.
- Usar a cama só para dormir, e não para trabalhar ou assistir a algo.
O médico Hiroki Shinkai aponta o que sabota o sono no ambiente: “O que faz o idoso ter muita dificuldade para dormir à noite é um quarto claro, quente e barulhento.”
Sobre o cochilo, ele dá o limite: “Se for cochilar, coloque esse limite de 20 a 30 minutos.”
Quando a insônia se torna crônica e se arrasta por meses, o tratamento de primeira escolha é a terapia cognitivo-comportamental.
É uma abordagem conduzida por profissional, que reeduca a relação com o sono. O médico é quem indica esse caminho e avalia cada caso.
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Remédio para dormir é seguro para o idoso?
Os remédios para dormir merecem uma conversa à parte quando o assunto é o idoso.
Os calmantes e indutores do sono mais conhecidos formam o grupo dos benzodiazepínicos e semelhantes, com risco maior nessa fase da vida.
Entre os efeitos estão quedas, dependência, confusão mental, piora da memória e sonolência que se arrasta pelo dia seguinte.
Por isso, o primeiro caminho para tratar a insônia não passa pelo remédio. “A primeira escolha para o tratamento da insônia é a terapia cognitivo-comportamental, ou seja, não é medicamento”, afirma o geriatra Flavio Jambo.
Sobre os riscos dessas substâncias, ele enumera: “Podem causar alguns efeitos colaterais, como perda de memória, diminuição da atenção e risco de queda.”
Nada disso justifica começar, trocar ou parar um remédio por conta própria. A retirada mal conduzida traz seus próprios riscos.
Só o médico avalia quando um medicamento é necessário, qual e por quanto tempo. Procure um geriatra ou o médico que acompanha o idoso antes de qualquer decisão sobre remédio para dormir.
Quando procurar um médico por causa da insônia?
A insônia se torna caso de médico quando se repete por semanas e atrapalha o dia.
Se as noites maldormidas já afetam o humor, a memória ou a disposição, é hora de buscar avaliação em vez de esperar melhorar sozinho.
Alguns sinais pedem pressa. O ronco forte com engasgos ou pausas na respiração durante o sono, somado a muito sono durante o dia, pode indicar apneia do sono e merece avaliação sem espera.
Um geriatra ou o médico que acompanha o idoso investiga a causa e indica o tratamento certo para cada caso.
Marque a consulta assim que perceber que as noites ruins se repetem, e leve a lista dos remédios em uso para a avaliação.

Fábio Guedes é jornalista (MTb 77804) com mais de 15 anos de experiência em coberturas de temas relacionados às áreas da saúde, negócios e finanças.
Criou o Idoso Saudável, por acreditar que o brasileiro deve poder decidir como quer viver a própria velhice, com informação confiável ao alcance dele e de quem cuida dele.





