A solidão na terceira idade é diferente de morar sozinho.
Há quem viva só e tenha os dias cheios de gente, e há quem more cercado da família e se sinta profundamente sozinho.
A diferença está em ter, ou não, alguém com quem contar e conversar.
Essa falta vem chegando devagar, sem alarde, e é comum o idoso não falar dela, seja para não preocupar ou por achar que é assim mesmo.
Mas falar dela é o começo de mudar isso, porque a solidão que se arrasta mexe com o ânimo, o sono e a saúde.
Há o que o próprio idoso pode fazer para retomar o convívio, o que a família pode fazer para estar mais presente e os sinais de quando a tristeza pede a ajuda de um profissional.
Por que a solidão é mais comum na terceira idade?
A solidão ataca mais nessa fase porque a vida vai tirando, uma a uma, as companhias de sempre.
A isso se soma a dificuldade de sair. A visão que piora, o joelho que dói e o medo de cair fazem o idoso recusar convites e ir fechando o mundo dentro de casa.
Quanto menos ele sai, menos é chamado, e o ciclo se aperta.
O médico Drauzio Varella lembra que essa é uma questão nova na história, fruto de uma conquista. Quando ele nasceu, no começo da década de 1940, a expectativa de vida no Brasil era de cerca de 45 anos. Hoje, chega a 76,6 anos.
Ou seja, viver mais trouxe uma experiência que as gerações anteriores não viveram, a de sobreviver a boa parte das pessoas com quem se conviveu.
Quais os riscos da solidão para a saúde do idoso?
A solidão prolongada cobra do corpo e da mente. Por isso, merece mais atenção em vez de silêncio.
No dia a dia, o isolamento rouba o sono, tira o apetite, apaga a vontade de se cuidar e abre a porta para a depressão. Com o tempo, o efeito vai além do humor.
“A solidão aumenta o risco de muitas doenças, por exemplo ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, aumentam o risco de Alzheimer e de outras demências parecidas”, alerta Drauzio Varella.
Ele resume onde está a proteção: “Você não pode se afastar dos amigos e dos familiares, porque são eles que nos mantêm ativos.”
Leia mais: Como reconhecer os primeiros sinais de Alzheimer
Como o idoso pode lidar com a solidão no dia a dia?
Reconstruir o convívio não exige uma grande mudança, só um começo.
Aos poucos, o idoso deve buscar iniciativas como:
- Retomar contatos antigos. Um telefonema para um amigo ou um primo reabre uma porta que parecia fechada.
- Ter um lugar para ir. Um centro de convivência, um grupo da igreja ou uma associação de bairro devolve o encontro com gente na mesma fase.
- Cultivar amizades de várias idades. Drauzio Varella recomenda: “Um jeito bom é termos amigos de várias idades, a gente tem amigos mais velhos e amigos mais novos.”
- Sair da posição passiva. Ele alerta contra passar o dia diante da televisão: “A posição passiva é muito prejudicial.” Trocar isso por qualquer atividade já muda o ânimo.
- Ler. Para Drauzio, é o estímulo mais poderoso: “O mais estimulante de todos é a leitura, porque a leitura estimula todas as partes do cérebro.”
- Usar a tecnologia a favor. A chamada de vídeo encurta a distância de quem mora longe e mata a saudade do rosto, não só da voz.
Como a família pode ajudar um idoso que se sente sozinho?
A presença da família vale mais pela qualidade do que pela frequência.
Uma visita curta com atenção inteira faz mais do que uma tarde ao lado de quem só olha o celular.
Alguns gestos ajudam a estreitar o convívio:
- Ligar com regularidade, mesmo que seja rápido, para o idoso saber que tem hora marcada com quem ama.
- Incluir nas decisões da família, para ele se sentir parte, e não um assunto que os outros resolvem.
- Ouvir sem apressar a solução. Muitas vezes a pessoa não quer conselho, quer companhia para a conversa.
- Ajudar a criar vínculos fora de casa, levando a um grupo, a uma atividade ou à igreja, para o convívio não depender só da família.
Quando a solidão do idoso exige ajuda profissional?
A solidão passa a ser caso de ajuda quando a tristeza deixa de ir e vir e se instala.
Alguns sinais pedem atenção:
- Tristeza ou desânimo que dura semanas, sem melhorar.
- Perda de interesse por tudo, inclusive pelo que a pessoa sempre gostou.
- Mudança no sono e no apetite, para mais ou para menos.
- Falas de que a vida não vale a pena ou de que seria melhor não estar aqui.
Diante de qualquer um desses sinais, procure um psicólogo ou o médico que acompanha o idoso, porque a depressão tem tratamento e não é parte normal de envelhecer.
Se houver qualquer menção a não querer viver, o CVV atende de graça, a qualquer hora, pelo telefone 188, e é um bom primeiro apoio para o idoso ou para a família.
Fontes
- Solidão e isolamento social entre pessoas idosas, Organização Mundial da Saúde (OMS)
- Tábuas Completas de Mortalidade 2024, expectativa de vida ao nascer, IBGE
- Centro de Valorização da Vida (CVV), apoio emocional e prevenção do suicídio, telefone 188
- Drauzio Varella, médico

Fábio Guedes é jornalista (MTb 77804) com mais de 15 anos de experiência em coberturas de temas relacionados às áreas da saúde, negócios e finanças.
Criou o Idoso Saudável, por acreditar que o brasileiro deve poder decidir como quer viver a própria velhice, com informação confiável ao alcance dele e de quem cuida dele.





