Solidão na terceira idade: como lidar e quando pedir ajuda

Idosa sentada olhando pela janela Foto: Pexels

A solidão na terceira idade é diferente de morar sozinho.

Há quem viva só e tenha os dias cheios de gente, e há quem more cercado da família e se sinta profundamente sozinho.

A diferença está em ter, ou não, alguém com quem contar e conversar.

Essa falta vem chegando devagar, sem alarde, e é comum o idoso não falar dela, seja para não preocupar ou por achar que é assim mesmo.

Mas falar dela é o começo de mudar isso, porque a solidão que se arrasta mexe com o ânimo, o sono e a saúde.

Há o que o próprio idoso pode fazer para retomar o convívio, o que a família pode fazer para estar mais presente e os sinais de quando a tristeza pede a ajuda de um profissional.

Por que a solidão é mais comum na terceira idade?

A solidão ataca mais nessa fase porque a vida vai tirando, uma a uma, as companhias de sempre.

A isso se soma a dificuldade de sair. A visão que piora, o joelho que dói e o medo de cair fazem o idoso recusar convites e ir fechando o mundo dentro de casa.

Quanto menos ele sai, menos é chamado, e o ciclo se aperta.

O médico Drauzio Varella lembra que essa é uma questão nova na história, fruto de uma conquista. Quando ele nasceu, no começo da década de 1940, a expectativa de vida no Brasil era de cerca de 45 anos. Hoje, chega a 76,6 anos.

Ou seja, viver mais trouxe uma experiência que as gerações anteriores não viveram, a de sobreviver a boa parte das pessoas com quem se conviveu.

Quais os riscos da solidão para a saúde do idoso?

A solidão prolongada cobra do corpo e da mente. Por isso, merece mais atenção em vez de silêncio.

No dia a dia, o isolamento rouba o sono, tira o apetite, apaga a vontade de se cuidar e abre a porta para a depressão. Com o tempo, o efeito vai além do humor.

“A solidão aumenta o risco de muitas doenças, por exemplo ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, aumentam o risco de Alzheimer e de outras demências parecidas”, alerta Drauzio Varella.

Ele resume onde está a proteção: “Você não pode se afastar dos amigos e dos familiares, porque são eles que nos mantêm ativos.”

Leia mais: Como reconhecer os primeiros sinais de Alzheimer

Como o idoso pode lidar com a solidão no dia a dia?

Reconstruir o convívio não exige uma grande mudança, só um começo.

Aos poucos, o idoso deve buscar iniciativas como:

  • Retomar contatos antigos. Um telefonema para um amigo ou um primo reabre uma porta que parecia fechada.
  • Ter um lugar para ir. Um centro de convivência, um grupo da igreja ou uma associação de bairro devolve o encontro com gente na mesma fase.
  • Cultivar amizades de várias idades. Drauzio Varella recomenda: “Um jeito bom é termos amigos de várias idades, a gente tem amigos mais velhos e amigos mais novos.”
  • Sair da posição passiva. Ele alerta contra passar o dia diante da televisão: “A posição passiva é muito prejudicial.” Trocar isso por qualquer atividade já muda o ânimo.
  • Ler. Para Drauzio, é o estímulo mais poderoso: “O mais estimulante de todos é a leitura, porque a leitura estimula todas as partes do cérebro.”
  • Usar a tecnologia a favor. A chamada de vídeo encurta a distância de quem mora longe e mata a saudade do rosto, não só da voz.

Como a família pode ajudar um idoso que se sente sozinho?

A presença da família vale mais pela qualidade do que pela frequência.

Uma visita curta com atenção inteira faz mais do que uma tarde ao lado de quem só olha o celular.

Alguns gestos ajudam a estreitar o convívio:

  • Ligar com regularidade, mesmo que seja rápido, para o idoso saber que tem hora marcada com quem ama.
  • Incluir nas decisões da família, para ele se sentir parte, e não um assunto que os outros resolvem.
  • Ouvir sem apressar a solução. Muitas vezes a pessoa não quer conselho, quer companhia para a conversa.
  • Ajudar a criar vínculos fora de casa, levando a um grupo, a uma atividade ou à igreja, para o convívio não depender só da família.

Quando a solidão do idoso exige ajuda profissional?

A solidão passa a ser caso de ajuda quando a tristeza deixa de ir e vir e se instala.

Alguns sinais pedem atenção:

  • Tristeza ou desânimo que dura semanas, sem melhorar.
  • Perda de interesse por tudo, inclusive pelo que a pessoa sempre gostou.
  • Mudança no sono e no apetite, para mais ou para menos.
  • Falas de que a vida não vale a pena ou de que seria melhor não estar aqui.

Diante de qualquer um desses sinais, procure um psicólogo ou o médico que acompanha o idoso, porque a depressão tem tratamento e não é parte normal de envelhecer.

Se houver qualquer menção a não querer viver, o CVV atende de graça, a qualquer hora, pelo telefone 188, e é um bom primeiro apoio para o idoso ou para a família.

Fontes

Fábio Guedes

Fábio Guedes é jornalista (MTb 77804) com mais de 15 anos de experiência em coberturas de temas relacionados às áreas da saúde, negócios e finanças.

Criou o Idoso Saudável, por acreditar que o brasileiro deve poder decidir como quer viver a própria velhice, com informação confiável ao alcance dele e de quem cuida dele.

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